

Maria Galindo critica discursos de inclusão e defende mudanças estruturais no feminismo
Em entrevista à BBC News Mundo, a artista e feminista boliviana disse que as lutas por direitos chegaram a um ciclo repetitivo e defendeu o fim do patriarcado como horizonte político. Galindo também criticou iniciativas de empoderamento associadas ao endividamento de mulheres.
Maria Galindo, grafiteira, radialista e feminista boliviana, afirmou que os discursos de inclusão, empoderamento e igualdade estão esgotados. Em entrevista à BBC News Mundo durante as preparações para o Hay Festival Querétaro, ela classificou essa abordagem como “fracassada, retórica e adormecedora”.
Galindo disse que as lutas por direitos das mulheres, das pessoas LGBTQIA+ e de outras minorias teriam entrado em um ciclo repetitivo e retórico. Para ela, o feminismo deve buscar mudanças estruturais e ter como horizonte o fim do patriarcado, em vez de se concentrar apenas nos direitos individuais.
A ativista também criticou programas de empoderamento que oferecem crédito a mulheres. Segundo ela, esse modelo pode aumentar a jornada de trabalho de artesãs e trabalhadoras da economia informal, que passam a atuar mais horas para pagar os empréstimos. Galindo afirmou que o endividamento feminino funciona como “colchão amortizador do modelo neoliberal”.
Criadora do coletivo Mujeres Creando, fundado há mais de 30 anos, Galindo defendeu a construção de sujeitos coletivos. Ela citou como exemplo as mães buscadoras no México, que atuam em conjunto na procura por pessoas desaparecidas, em vez de agir apenas como indivíduos.
Na entrevista, a boliviana também disse que as respostas à violência machista em seu país resultam de um processo de insubordinação contra o patriarcado. Ao comentar um estudo sobre feminicídios realizado com a clínica da Universidade de Harvard, afirmou que, em casos analisados, as vítimas haviam tomado decisões de ruptura, como se divorciar, trabalhar, estudar ou frequentar festas.
Galindo relatou ainda episódios de repressão relacionados a trabalhos artísticos do coletivo. Segundo ela, o Estado a processou por atos obscenos após uma cena da série audiovisual “Mamá no me lo Dijo”, filmada em La Paz, e ela continua sendo ameaçada depois de uma aparição na televisão com um traje amazônico.
Fonte: BBC News Brasil
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