

Conversas com ChatGPT levam à prisão de agricultor no Espírito Santo
Mensagens em que um agricultor teria relatado planos contra o filho e pesquisado ataques foram encaminhadas pela OpenAI às autoridades. Especialistas afirmam que os registros podem fundamentar uma prisão preventiva, mas não bastam, sozinhos, para uma acusação criminal.
Um agricultor de 36 anos, identificado pelo nome fictício João, foi preso preventivamente no Espírito Santo após conversas com o ChatGPT indicarem, segundo a Polícia Civil, um possível plano para matar o filho de 8 anos, cometer ataques e tirar a própria vida. As mensagens também mencionavam pesquisas sobre substâncias tóxicas e a oferta de dinheiro para que outra pessoa matasse a criança.
A OpenAI comunicou a interação ao FBI, que acionou autoridades brasileiras. O caso chegou à Polícia Civil em 16 de junho, por meio do Ciberlab, do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Três dias depois, o agricultor foi detido ao sair de casa, na zona rural de São Gabriel da Palha, um dia antes da data em que, conforme a polícia, o plano seria executado.
João ficou preso por 54 dias e foi solto em 13 de agosto, após a Justiça conceder habeas corpus por considerar excessiva a demora na conclusão da investigação. Ele deverá usar tornozeleira eletrônica e não poderá se aproximar nem manter contato com o filho e com a mãe da criança. A polícia aguarda laudos de objetos apreendidos e pericia o celular do investigado.
Na residência, foram encontrados quatro frascos com substância desconhecida e uma corda amarrada. As conversas também incluíam pesquisas genéricas sobre ataques contra escolas, igrejas e policiais, além de tentativas de reformular perguntas para contornar restrições da ferramenta. A defesa afirma que o agricultor não praticou crime.
O caso abriu uma discussão sobre o uso de conversas com inteligência artificial como prova. Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que as mensagens podem ter contribuído para justificar a prisão preventiva diante do risco apontado pela investigação, mas não seriam suficientes, isoladamente, para sustentar uma acusação. Eles destacam a necessidade de acesso ao conteúdo integral, incluindo as respostas do ChatGPT, para verificar o contexto e a autenticidade da interação.
A polícia recebeu as perguntas feitas pelo usuário e dados da conta, mas não as respostas da ferramenta. Em nota, a OpenAI disse que pode notificar autoridades quando identifica risco iminente e crível de danos a terceiros, reservando esse encaminhamento a situações excepcionais e de alto risco.
Fonte: bbc.com
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